Ações em massa e pouco repasse a clientes: como funcionavam esquemas de advogados investigados por fraude no interior de SP

Duas operações do Gaeco investigam suspeitas de fraude contra aposentados em ações judiciais no interior de São Paulo. Documentos das apurações descrevem práticas que teriam envolvido milhares de processos.

Libelo e Garatéia cumpriram mandados em 20 de outubro de 2026, em investigações distintas. Segundo o Gaeco, os casos envolvem formas diferentes de captar clientes e conduzir ações contra bancos.

As apurações abrangem Ribeirão Preto, Altinópolis e Franca. O advogado Guilherme Menna Barreto Gentil foi preso em flagrante durante buscas em Ribeirão Preto, segundo a Polícia Militar.

fraude contra aposentados

As investigações examinam a atuação de advogados, o uso de procurações e o destino de valores obtidos em processos. As defesas dos investigados contestam as suspeitas, e o Ministério Público ainda analisará os materiais apreendidos.

Libelo: ações repetidas e venda de créditos em Altinópolis e Ribeirão Preto

A Vara de Altinópolis identificou mais de 2 mil ações relacionadas ao advogado Guilherme Menna Barreto Gentil, muitas em nome de idosos. Em depoimentos à Justiça, vários autores disseram desconhecer tanto a liberação de valores nos processos quanto a venda do direito de recebê-los.

Segundo a investigação do Gaeco, clientes eram atendidos na Desenrola, empresa de Rodrigo Gentil, pai do advogado, instalada no mesmo prédio do escritório em Altinópolis. Funcionárias recolhiam documentos e obtinham assinaturas em procurações que autorizavam a atuação jurídica em nome dos clientes.

O escritório ajuizava ações repetidas contra bancos, algumas inicialmente abertas por outras advogadas e depois repassadas a Guilherme. Quando havia condenação, os valores eram sacados para uma conta do advogado; os clientes, por sua vez, vendiam os créditos por quantias menores, primeiro à Desenrola e depois à Finalize, empresa de Campo Grande (MS). Uma funcionária afirmou que os pagamentos eram feitos quase sempre em dinheiro vivo.

Com o aumento da fiscalização judicial, apareceram procurações com firma reconhecida entregues com atraso, e a Finalize passou a ocupar o lugar da Desenrola nas operações descritas pelo Gaeco. A investigação aponta Guilherme como figura central e destino frequente dos saques; Rodrigo é dono da Desenrola, e Luiz Felipe Coutinho de Almeida Dias é sócio da Finalize. Adriely Naves Lovato e Raffaela Costa Moysés teriam aberto ações depois transferidas a Guilherme, mas, segundo o Gaeco, não havia então elementos que ligassem Raffaela ao desvio de dinheiro; a função de Ana Augusta Furtado Tanno ainda não estava esclarecida.

Garatéia: captação de aposentados e procurações reaproveitadas em Franca

Em Franca, a apuração começou em 2024, após indícios de uso de procurações antigas ou genéricas. De acordo com o Gaeco, o grupo investigado mantinha planilhas com dados de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e acessava sistemas que permitiam consultar quem tinha empréstimos consignados.

A captação ocorria por lives com influenciadores, mensagens pelo WhatsApp e ligações com roteiros voltados também a idosos; os clientes pagavam uma taxa de entrada. A investigação afirma que uma mesma procuração genérica era reutilizada em ações contra bancos diferentes, por vezes até dois anos depois de assinada.



Uma cliente teve seis ações abertas no mesmo dia, segundo os documentos da apuração. Quando a Justiça exigiu procurações atualizadas, ações foram abandonadas; em áudios analisados pelo Gaeco, investigados também discutiam recorrer a advogados de outros estados para distribuir processos e reduzir a concentração em Franca.

Contas ligadas ao grupo receberam R$ 10,9 milhões provenientes de processos, mas somente R$ 2,7 milhões foram destinados a pessoas de fora do grupo. Para o Ministério Público, parte dos valores teria sido convertida em dinheiro vivo para ocultar bens; em outro caso, duas ações foram protocoladas em nome de um idoso já falecido, e Felipe Cintra de Paula disse à Justiça que não sabia da morte. O Gaeco atribui a Thaís Batista Coelho de Paula a captação e a cobrança de taxas, e a Felipe a coordenação jurídica e financeira; Pablo Almeida Chagas cuidaria dos dados, Danilo Stante Herker da distribuição das ações e Letícia Ferreira dos Santos teria enviado a Pablo uma planilha e a senha de consulta, embora o papel dela ainda precise ser aprofundado.

Prisão, manifestações das defesas e próximos passos da investigação

Durante as buscas em um apartamento de Ribeirão Preto, policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep) disseram ter visto Guilherme jogar equipamentos eletrônicos pela janela; um aparelho foi recuperado em uma laje. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a defesa informaram que eram um notebook e um celular, e o flagrante foi fundamentado na lei de organizações criminosas, que prevê punição para quem atrapalha uma investigação.

Segundo a Polícia Militar, Guilherme permaneceu em silêncio. Uma audiência de custódia estava prevista para 21 de outubro de 2026; somados os casos, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 6,1 milhões em bens, dos quais até R$ 3,1 milhões se referem à Garatéia.

O advogado Julio Mossin, que defende Guilherme, afirmou que o cliente não cometeu fraude nem se apropriou de valores de clientes, e contestou a necessidade de mantê-lo preso. Em depoimento anterior à operação, Guilherme havia negado irregularidades e atribuído as reclamações às vendas de crédito feitas pela Desenrola; Rodrigo também negou buscar clientes. Rafael Spirlandeli, advogado de Thaís e Felipe, disse que os clientes atuam dentro da legalidade e que colaborariam com a Justiça; segundo ele, a investigação começou após denúncia de uma instituição financeira processada por cobrar taxas indevidas de aposentados, e as ações dos clientes foram julgadas procedentes.

A defesa de Ana Augusta Furtado Tanno declarou que ela trabalhou remotamente por poucos meses, elaborando petições e acompanhando processos, e que as consultas ao cartório eram parte dessa rotina, sem poder de decisão ou recebimento de valores. As defesas dos demais investigados e das empresas citadas não haviam respondido até a última atualização da reportagem. O material apreendido será analisado pelo Ministério Público, que poderá apresentar denúncia à Justiça ou pedir o arquivamento; os crimes investigados incluem estelionato, inclusive contra idosos, fraude eletrônica, falsificação de documento, falsidade ideológica, apropriação indébita e organização criminosa, com associação criminosa também apurada na Garatéia.



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